Imagine operar com a metodologia wireline®, introduzida na década de 1960 e que rapidamente transformou o mercado da sondagem rotativa e da sondagem mista diamantada. Essa tecnologia trouxe ganhos evidentes em estabilidade operacional, produtividade e qualidade das amostras, sejam elas de solos, saprólitos, rochas alteradas ou rochas sãs, quando comparadas à metodologia convencional. Agora imagine que, mesmo utilizando essa tecnologia, você ainda seja obrigado por clientes, fiscalização, projetistas ou ATOs a utilizar o amostrador Denison para a amostragem de solos e saprólitos. Esse cenário — ainda presente em muitos projetos — começa a desaparecer rapidamente, especialmente no ambiente da geotecnia aplicada à mineração. Cada vez mais se consolida a amostragem testemunhada integral por sondagem rotativa e sondagem mista diamantada utilizando a metodologia wireline®, que permite a aplicação do sistema Q®.
A tecnologia foi desenvolvida pela Boart Longyear, e suas vantagens são evidentes para qualquer profissional que já a tenha visto em operação ou que tenha se dedicado a estudar seu funcionamento. Mas há um ponto ainda mais interessante: a base normativa internacional já reconhece essa superioridade técnica. A International Organization for Standardization publicou a norma ISO 22475-1:2021, que estabelece como devem ser conduzidos os métodos de amostragem de solos, saprólitos e rochas, além das medições de água subterrânea em investigações geotécnicas.
Norma ISO: https://www.iso.org/standard/72057.html
Nas páginas 128 e 129, por meio da Tabela D.1, a norma apresenta um ranking claro relacionando tipos de amostradores e qualidade das amostras obtidas, classificando os métodos de A até E. Para quem conhece a tecnologia wireline®, não é surpresa que a categoria máxima (“A”) seja atribuída ao método wireline® utilizando barrilete triplo (triple tube core barrel) — ou seja, o sistema Q® nas modalidades Q-2-3® e Q-TT®. A norma segue detalhando essa relação nas Tabelas H.1 e H.2, que correlacionam propriedades dos solos e rochas com as classes de qualidade das amostras necessárias para ensaios laboratoriais, utilizando uma classificação de qualidade de 1 a 5. O ponto central é claro: a qualidade máxima de amostragem só é atingida com sondagem rotativa ou mista diamantada utilizando metodologia wireline® e sistema Q® com barrilete triplo. Curiosamente, o tradicional amostrador Denison, amplamente exigido em muitos contratos no Brasil, se enquadra apenas na categoria “B”, com classificação de qualidade entre 2 e 5. Outro aspecto importante: mesmo o sistema Q®, quando aplicado dentro da metodologia convencional de sondagem, também permanece na categoria “B”. Ou seja, não é apenas o equipamento que importa — o método operacional é determinante.
Quando essa leitura da ISO 22475-1:2021 é comparada com a Norma 104/2023 da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE), surge um panorama extremamente interessante sobre o momento atual da geotecnia brasileira.
Norma ABGE 104: https://www.abge.org.br/norma-104
A norma brasileira já descreve a metodologia wireline® e o sistema Q®, incluindo:
• barriletes duplos e triplos (Q-2-3® e Q-TT®)
• camisas internas bipartidas metálicas
• camisas de PVC
• liners de acrílico transparentes
Esses últimos permitem inclusive observar o testemunho através da própria parede do tubo, trazendo um nível adicional de sofisticação à descrição geotécnica. Ainda assim, na Norma 104 da ABGE, a metodologia wireline® aparece como coadjuvante, enquanto a metodologia convencional permanece como protagonista. Isso não chega a surpreender. A sondagem rotativa e a sondagem mista no Brasil estiveram por décadas fortemente vinculadas ao método convencional.
Mas os sinais de mudança são claros. Especialmente aqui em Minas Gerais, começa a se consolidar uma nova realidade técnica: a amostragem testemunhada integral de alta qualidade utilizando metodologia wireline® e sistema Q®.
Tudo indica que estamos assistindo ao nascimento de um verdadeiro Novo Padrão Ouro de amostragem geotécnica no Brasil — com impactos diretos na qualidade dos dados geológicos, na confiabilidade dos projetos geotécnicos e na evolução da própria indústria de sondagens.
Alessandro Jésus Guimarães
Engenheiro Geólogo Especialista em Meio Ambiente – UNICAMP
Mestre em Geotecnia – NUGEO
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